terça-feira, 5 de janeiro de 2010

"Queremos Uruguai cheio de engenheiros, filósofos e artistas"




"Queremos Uruguai cheio de engenheiros, filósofos e artistas"


O presidente eleito do Uruguai, José "Pepe" Mujica, reuniu-se com um grupo de intelectuais em dezembro de 2009 e fez alguns pedidos a eles: que contagiem todo o povo uruguaio com o olhar curioso sobre o mundo, que está no DNA do trabalho intelectual, e com o inconformismo. Mujica propõe também uma revolução na educação. "Escolas de tempo completo, faculdades no interior, ensino superior massificado. E, provavelmente, inglês desde o pré-escolar no ensino público. Porque o inglês não é idioma falado pelos ianques; é o idioma com o qual os chineses conversam com o mundo. Não podemos ficar de fora".


Discurso proferido em dezembro de 2009 pelo presidente eleito da República do Uruguai, José Alberto Mujica Cordano (El Pepe), dirigente histórico e fundador do Movimento de Libertação Tupamaros:A vida tem sido extraordinariamente generosa comigo. Ela me deu inúmeras satisfações, mais além do que jamais me atrevera a sonhar.Quase todas são imerecidas. Mas nenhuma é mais que a de hoje: encontrar-me aqui agora, no coração da democracia uruguaia, rodeado de centenas de cabeças pensantes.Cabeças pensantes! À direita e à esquerda.

Cabeças pensantes a torto e a direito, cabeças pensantes para atirar para cima.Vocês se lembram do Tio Patinhas, o tio milionário do Pato Donald que nadava em uma piscina cheia de moedas? Ele tinha uma sensualidade física pelo dinheiro.Gosto de me ver como alguém que gosta de tomar banho em piscinas cheias de inteligência alheia, de cultura alheia, de sabedoria alheia.Quanto mais alheia, melhor. Quanto menos coincide com meus pequenos saberes, melhor.O semanário Búsqueda tem uma frase charmosa que usa como insígnia:“O que digo, não o digo como homem sabedor, mas sim buscando junto com vocês”.Por uma vez estamos de acordo. Sim, estaremos de acordo.

O que digo, não o digo como chacareiro sabichão, nem como trovador ilustrado. Digo-o buscando com vocês.O digo, buscando, porque só os ignorantes acreditam que a verdade é definitiva e maciça, quando ela é apenas provisória e gelatinosa. É preciso buscá-la porque ela anda correndo brincando de esconde-esconde. E pobre daquele que empreenda essa caça sozinho. É preciso fazê-la com vocês, com aqueles que fizeram do trabalho intelectual a razão de sua vida. Com os que estão aqui e com os muito mais que não estão. De todas as disciplinas. Se olharem para trás, seguramente encontrarão algumas caras conhecidas porque se trata de gente que trabalha em espaços de trabalho afins. Mas vão encontrar muito mais rostos desconhecidos porque a regra desta convocação foi a heterogeneidade.

Aqui estão os que se dedicam a trabalhar com átomos e moléculas e os que se dedicam a estudar as regras da produção e da troca na sociedade. Há gente das ciências básicas e de sua quase antípoda, as ciências sociais: gente da biologia e do teatro, da música, da educação, do direito e do carnaval. Há gente da economia, da macroeconomia, da microeconomia, da economia comparada e até alguns da economia doméstica.

Todas cabeças pensantes, mas que pensam distintas coisas e podem contribuir desde suas distintas disciplinas para melhorar este país. E melhorar este país significa muitas coisas, mas entre as prioridades que queremos para esta jornada, melhorar o país significa impulsionar os processos complexos que multipliquem por mil o poderio intelectual que aqui está reunido. Melhorar o país significa que, dentro de vinte anos, o Estádio Centenário não seja suficiente para abrigar um ato como este, pois o Uruguai estará cheio, até as orelhas, de engenheiros, filósofos e artistas. Não é queiramos um país que bata os recordes mundiais pelo puro prazer de fazê-lo. É porque está demonstrado que, uma vez que a inteligência adquira um certo grau de concentração em uma sociedade, ela se torna contagiosa.Inteligência distribuída.

Se, um dia, lotarmos estádios de gente formada será porque, na sociedade, haverá centenas de milhares de uruguaios que cultivaram sua capacidade de pensar. A inteligência que traz riqueza para um país é a inteligência distribuída. É a que não está só guardada nos laboratórios ou na universidade, mas sim anda pela rua. A inteligência que se usa para plantar, para tornear, para manejar uma máquina, para programar um computador, para cozinhar, para atender bem um turista é a mesma inteligência. Alguns subiram mais degraus do que outros, mas se trata da mesma escada. E os degraus de baixo são os mesmos para a física nuclear e para o manejo de um campo. Para tudo é preciso o mesmo olhar curioso, faminto de conhecimento e muito inconformista. Acabamos sabendo porque antes ficamos incomodados por não saber.

Aprendemos porque temos comichão e isso se adquire por contágio cultural desde quando abrimos os olhos ao mundo.Sonho com um país onde os pais mostrem a pastagem a seus filhos pequenos e digam: “Sabem o que é isso? É uma planta processadora da energia do sol e dos minerais da terra”. Ou que lhes mostrem o céu estrelado e façam com que pensem nos corpos celestes, na velocidade da luz e na transmissão das ondas. E não se preocupem que esses pequenos uruguaios vão seguir jogando futebol. Só que, lá pelas tantas, enquanto vêem a bola picar, podem pensar ao mesmo tempo na elasticidade dos materiais que a fazem rebotar. Capacidade de interrogar-seHavia um ditado: “Não dê peixe a uma criança, ensina-a a pescar”. Hoje deveríamos dizer: “Não dê um dado a uma criança, ensina-a a pensar”.

Do jeito que vamos, os depósitos de conhecimento não vão estar mais situados dentro de nossas cabeças, mas sim fora, disponíveis para buscá-los na internet. Aí vai estar toda a informação, todos os dados, tudo o que se sabe. Em outras palavras, aí vão estar todas respostas. Mas não vão estar todas as perguntas. O diferencial vai estar na capacidade de se interrogar, na capacidade de formular perguntas fecundas, que provoquem novos esforços de investigação e aprendizagem.E isso está bem no fundo, marcado quase no nosso de nossa cabeça, tão fundo que quase não temos consciência.Simplesmente aprendemos a olhar o mundo com um sinal de interrogação e essa se torna nossa maneira natural de olhar para o mundo. Adquirimos essa capacidade muito cedo e ela nos acompanha por toda a vida. E, sobretudo, queridos amigos, ela contagia.Em todos os tempos foram vocês, os que se dedicam à atividade intelectual, os encarregados de espalhar a semente. Ou para dize-lo em palavras que nos são muito caras: vocês têm sido os encarregados de acender a necessária inquietação.

Por favor, vão e contagiem. Não perdoem a ninguém.Necessitamos de um tipo de cultura que se propague no ar, entre os lugares, que se cole nas cozinhas e até nos banheiros. Quando conseguirmos isso, teremos ganho a partida quase para sempre. Porque se quebra a ignorância essencial que enfraquece muita gente, uma geração após a outra.

O conhecimento é prazerPrecisamos, antes de mais nada, massificar a inteligência, para nos tornarmos produtores mais potentes. Isso é quase uma questão de sobrevivência. Mas nesta vida não se trata só de produzir: também é preciso desfrutar. Vocês sabem melhor do que ninguém que, no conhecimento e na cultura, não há só esforço, mas também prazer. Dizem que as pessoas que correm pelas ruas chegam num ponto em que entram numa espécie de êxtase onde já não existe o cansaço e só fica o prazer. Creio que ocorre o mesmo com o conhecimento e a cultura. Chega um ponto onde estudar, investigar e aprender já não é um esforço, mas um puro deleite.

Que bom seria que esses manjares estivessem a disposição de muita gente! Que bom seria se, na cesta de qualidade de vida que o Uruguai pode oferecer a sua gente, houvesse uma boa quantidade de consumos intelectuais. Não porque seja elegante, mas sim porque é prazeroso. Porque se desfruta com a mesma intensidade com a qual se pode desfrutar de um prato de talharim.Não há uma lista obrigatória das coisas que nos tornam felizes! Alguns podem pensar que o mundo ideal é um lugar repleto de shopping centers. Nesse mundo, as pessoas são felizes porque todos podem sair cheios de sacolas com roupas novas e caixas de eletrodomésticos. Não tenho nada contra essa visão, só digo que ela não é a única possível.

Digo que também podemos pensar em um país onde a gente escolhe arrumar as coisas ao invés de jogá-las fora, onde se prefere um carro pequeno a um grande, onde decidimos nos agasalhar melhor ao invés de aumentar a calefação.Esbanjar não é o que fazem as sociedades mais maduras. Vejam a Holanda e as cidades repletas de bicicletas. Aí as pessoas se deram conta de que o consumismo não é a escolha da verdadeira aristocracia da humanidade. É a escolha dos farsantes e dos frívolos.

Os holandeses andam de bicicleta, eles as usam para ir trabalhar, mas também para ir a concertos ou aos parques. Chegaram a um nível em que sua felicidade cotidiana se alimenta de consumos materiais como intelectuais.De modo que, amigos, vão e contagiem todos com o prazer pelo conhecimento. Paralelamente, minha modesta contribuição será fazer com que os uruguaios andem de pedalada em pedalada.InconformismoEu lhes pedi antes que contagiem os outros com o olhar curioso sobre o mundo, que está no DNA do trabalho intelectual. E agora aumento o pedido e lhes rogo que contagiem também com o inconformismo. Estou convencido que este país necessita uma nova epidemia de inconformismo, como a que os intelectuais geraram décadas atrás.No Uruguai, nós que estamos no espaço político da esquerda somos filhos ou sobrinhos daquele semanário Marcha, do grande Carlos Quijano. Aquela geração de intelectuais impôs-se a si mesma a tarefa de ser a consciência crítica da nação. Andavam com alfinetes na mão, estourando balões e desinflando mitos.Sobretudo o mito do Uruguai multicampeão.

Campeão da cultura, da educação, do desenvolvimento social e da democracia. Acabamos não sendo campeões de nada. Menos ainda nestes anos, nas décadas de 50 e 60, onde o único recorde que obtivemos foi ser o país da América Latina que menos cresceu em 20 anos. Só o Haiti nos superou neste ranking.

Esses intelectuais ajudaram a demolir aquele Uruguai da siesta conformista.Com todos seus defeitos, preferimos esta etapa, onde estamos mais humildes e situados na real estatura que temos no mundo. Mas precisamos recuperar aquele inconformismo e colocá-lo embaixo da pele do Uruguai inteiro.

Antes eu dizia a vocês que a inteligência que serve a um país é a inteligência distribuída. Agora, digo que o inconformismo que serve a um país é o inconformismo distribuído. Aquele que invade a vida de todos os dias e nos empurra a perguntar-nos se o que estamos fazendo não pode ser feito melhor. O inconformismo está na própria natureza do trabalho de vocês. Precisamos que ele se torne uma segunda natureza de todos nós.Uma cultura do inconformismo é aquela que não nos deixa parar até que consigamos mais quilos por hectare de trigo ou mais litros por vaca leiteira.

Tudo, absolutamente tudo, pode ser feito de um modo um pouco melhor do que foi feito ontem.

Desde arrumar a cama de um hotel até produzir um circuito integrado.Necessitamos de uma epidemia de inconformismo. E isso também é cultural, também se irradia desde o centro intelectual da sociedade para sua periferia. É o inconformismo que fez com que pequenas sociedades ganhassem respeito sobre o que fazem. Aí estão os suíços, meia dúzia de gatos pintados como nós, que se dão o luxo de andar por aí vendendo qualidade suíça ou precisão suíça. Eu diria que o que vendem de verdade é inteligência e inconformismo suíços, que estão esparramados por toda a sociedade.

A educação é o caminhoAmigos, a ponte entre este hoje e este amanhã que queremos tem um nome e se chama educação. É uma ponte longa e difícil de cruzar. Porque uma coisa é a retórica da educação e outra coisa é nos decidirmos a fazer os sacrifícios necessários para lançar um grande esforço educativo e sustentá-lo no tempo. Os investimentos em educação são de rendimento lento, não iluminam nenhum governo, mobilizam resistências e obrigam o adiamento de outras demandas.Mas é preciso seguir esse caminho. Devemos isso a nossos filhos e netos. E é preciso fazê-lo agora, quando ainda está fresco o milagre tecnológico da internet e se abrem oportunidades nunca antes vistas de acesso ao conhecimento.

Eu me criei com o rádio, vi nascer a televisão, depois a televisão a cores, depois as transmissões por satélite. Mais tarde, passaram a aparecer quarenta canais em minha TV, incluindo aí os que transmitiam direto dos Estados Unidos, Espanha e Itália. Depois vieram os celulares e os computadores que, no início, serviam apenas para processar números. Em cada um destes momentos, fiquei com a boca aberta. Mas agora com a internet se esgotou a minha capacidade de surpresa. Sinto-me como aqueles humanos que viram uma roda pela primeira vez. Ou que viram o fogo pela primeira vez.Sentimos que nos tocou a sorte de viver um marco na história. Estão sendo abertas as portas de todas as bibliotecas e de todos os museus. Todas as revistas científicas e todos os livros do mundo vão estar a nossa disposição. E, provavelmente, todos os filmes e todas as músicas do mundo. É perturbador.

Por isso precisamos que todos os uruguaios e, sobretudo, todos os pequenos uruguaios saibam nadar nessa corrente. Precisamos subir essa corrente e navegar nela como um peixe na água. Conseguiremos isso se a matriz intelectual da qual falávamos antes estiver sólida. Se soubermos raciocinar em ordem e fazermos as perguntas que valem a pena. É como uma corrida em duas vias: lá em cima no mundo o oceano de informação; aqui embaixo, nós, preparando-nos para a navegação transatlântica.Escolas de tempo completo, faculdades no interior, ensino superior massificado. E, provavelmente, inglês desde o pré-escolar no ensino público. Porque o inglês não é idioma falado pelos ianques; é o idioma com o qual os chineses conversam com o mundo. Não podemos ficar de fora. Não podemos deixar nossas crianças de fora.

Essas são as ferramentas que nos habilitam a interagir com a explosão universal do conhecimento. Este mundo não simplifica a nossa vida: complica-a. Nos obriga a ir mais longe, a ir mais fundo na educação. Não há tarefa maior diante de nós.O idealismo ao serviço do EstadoQueridos amigos, estamos em tempos eleitorais. Em benditos e malditos tempos eleitorais. Malditos, porque nos põe a brigar e a disputar corridas entre nós. Benditos, porque nos permitem a convivência civilizada. E mais uma vez benditos porque, com todas as suas imperfeições, nos fazem donos do nosso próprio destino. Aqui todos aprendemos que é preferível a pior democracia à melhor ditadura.Nos tempos eleitorais, todos nos organizamos em grupos, frações e partidos, nos cercamos de técnicos e profissionais e desfilamos frente ao soberano. Há adrenalina e entusiasmo. Mas depois, alguém ganha e alguém perde. E isso não deveria ser um drama.

Com estes ou com aqueles, a democracia uruguaia seguirá seu caminho e irá encontrando as fórmulas rumo ao bem-estar. Seja qual for o lugar que nos toque, ali estaremos colocando a tarefa sobre os ombros. E estou seguro de que vocês também. A sociedade, o Estado e o Governo precisam de seus muitos talentos. E precisam mais ainda de sua atitude idealista. Nós que estamos aqui, entramos na política para servir, não para nos servir do Estado. A boa fé é a nossa única intransigência. Quase todo o resto é negociável. Muito obrigado por acompanharem-me.

Pepe Mujica

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domingo, 15 de novembro de 2009

Grupo Dinamarquês SUPERFLEX em temporada na Fundaj Derby



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A Coordenação de Artes Visuais da Diretoria de Cultura da Fundaj traz para o Recife o grupo dinamarquês Superflex, para apresentar na Galeria Vicente do Rego Monteiro os filmes Burning Car / Carro em Chamas (2008, 11min) e Flooded McDonald’s / McDonald’s Inundada (2009, 20min). O primeiro filme somente foi visto, no Brasil, na cidade de São Paulo. O segundo é inédito no país. As exposições ficam em cartaz a partir de 10 de novembro até 20 de dezembro.

O grupo dinamarquês SUPERFLEX foi criado em 1993 e é formado pelos artistas Bjornstjerne Reuter Christiansen (1969), Jakob Fenger (1968) e Rasmus Nielsen (1969), todos residentes em Copenhague. O grupo tem se destacado por realizar trabalhos artísticos que questionam estruturas assentadas de poder, sem por isso deixar-se reduzir à mera ilustração de temas políticos ou econômicos. Suas instalações, filmes e projetos de natureza diversa tem sido vistas em exposições individuais e coletivas em partes diversas do mundo, havendo participado, no Brasil, da 27ª Bienal de São Paulo, em 2006.

Burning Car / Carro em Chamas exibe literalmente o que seu título sugere: um carro incendiando até não sobrarem dele mais que ferros retorcidos e cinzas. Filmado no contexto dos recentes distúrbios na França relacionados à cobrança por melhores condições de empregabilidade para os jovens franceces e, em particular, para aqueles cuja origem (imediata ou remota) são os países que foram no passado colonizados pela França, o filme é, na verdade, metáfora de muitos outros conflitos, e índice do que ocorre em muitos outros lugares. De modo sintético e plástico, evoca questões como o desemprego, o racismo, a exclusão social e a falta de perspectiva de vida mesmo para parcela dos empregados, bem como a violência, o medo e a hipocriasia que as cercam, seja em Paris, Copenhague, São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador ou no Recife.

Flooded McDonald’s / McDonald’s Inundada exibe, da mesma forma, o que seu título indica: uma lanchonete da McDonald’s sendo progressivamente alagada pela água que a invade não se sabe de onde, ao ponto de ficar totalmente submersa. Aqui, questões como globalização, homogeneização de hábitos culturais (em particular, alimentares), saúde pública, responsabilidades e efeitos do aquecimento global, controle midiático de gostos e do lazer, entre tantos outros temas são evocados por imagens que refazem e re-significam a experiência de frequentar qualquer uma das inúmeras lojas que integram a cadeia de lanchonetes norte-americana.

A exposição do SUPERFLEX dá início a um novo programa de ações da Coordenação de Artes Visuais da Diretoria de Cultura da Fundação Joaquim Nabuco, chamado
POLÍTICA DA ARTE.
Esse programa tem como pressuposto o caráter ambíguo que a arte possui desde que se viu liberta de sua função de meramente representar o mundo: Por um lado, a arte é aquilo que interrompe as coordenadas usuais da experiência sensorial. Por outro lado, e justamente por possuir essa potência de desconcerto, a arte é capaz de reconfigurar os temas e as atitudes passíveis de serem inscritas nos espaços comuns de existência. Nesse sentido preciso, é mesmo impossível separar a estética da política. É o imbricamento dessas duas dimensões que assegura, simultaneamente, o lugar único da arte na organização simbólica da vida e sua capacidade de esclarecer e de reinventar as formas em que o mundo se estrutura.

A eleição da tensa relação entre estética e política como princípio organizador do projeto se justifica por duas razões. Em primeiro lugar, por estar-se vivendo hoje em um mundo de conflitos diversos onde paradigmas de sociabilidade são o tempo inteiro questionados, e onde a arte com frequência crescente emerge como meio de apreensão e de simultânea reinvenção da realidade. Em segundo lugar, por esse movimento de aproximação entre estética e política ter sido tão extenso nas duas últimas décadas que se faz necessário novamente destacar a singularidade da arte em relação ao campo da cultura, por vezes confundidos ao ponto da indistinção.
O projeto tem duração prevista de três anos e compreenderá dez exposições na Galeria Vicente do Rego Monteiro, com ênfase na produção em vídeo – mídia em que algumas das mais interessantes aproximações entre arte e política tem sido feitas – e em atividades reflexivas. Tais atividades serão definidas a partir das questões que os próprios trabalhos expostos colocam, e incluirão ações voltadas ao acolhimento de professores e estudantes, debates com públicos diversos, exibições de filmes correlatos e edição de textos.
Para a exposição do SUPERFLEX, a primeira sala da Galeria Vicente do Rego Monteiro está transformada em espaço de convívio e debate, com mesas, bancos e material de consulta (textos, imagens, estatísticas e informações variadas) que sugere conexões, direta ou indireta, com questões que os filmes projetados na segunda sala evocam, servindo assim de estímulo à reflexão para os que visitam a mostra.
Esse ambiente é também dedicado à realização de debates, abertos a todos os interessados, com convidados de áreas diversas do conhecimento e com diferentes inserções na malha social (professores, pesquisadores, políticos, líderes comunitários, artistas, curadores, entre outros). A programação atualizada desses encontros pode ser encontrada em
www.fundaj.gov.br ao longo do período de realização da mostra. O uso desse espaço, propício à discussão e à troca, por professores de campos de conhecimento diversos que queiram transformá-lo em espaço alternativo para aulas ou seminários é estimulado, bastando para isso proceder-se a agendamento.
Como parte da programação discursiva que acompanha a mostra, haverá uma mesa-redonda reunindo os críticos e curadores Luis Camillo Osório (professor da PUC-RJ e curador do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro) e Jochen Volz (curador de Inhtotim e curador-adjunto da 53ª Bienal de Veneza, realizada em 2009). Os expositores discutirão aspectos da ambígua relação entre política e arte e, em particular, tratarão de questões suscitadas pela obra do SUPERFLEX. Moacir dos Anjos, coordenador da Coordenação de Artes Visuais da Diretoria de Cultura da Fundação Joaquim Nabuco e curador do programa POLÍTICA DA ARTE, fará a mediação do evento.



Serviço:

SUPERFLEX
Burning Car / Carro em Chamas [10 a 29 de novembro]
Flooded McDonald’s / McDonald’s Inundada [1 a 20 de dezembro]
Galeria Vicente do Rego Monteiro
Terça a domingo, das 15h às 20h

Mesa-redonda
Sala Aloísio Magalhães
12 de dezembro, às 19h


Fundação Joaquim Nabuco
Rua Henrique Dias, 609 - Derby
Agendamento para escolas e grupos: (81) 30736703.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Sites que estimulam nossa consciência?















O Google lançou um novo site de busca na internet, chamado eco4planet, com a mesma tecnologia e qualidade de busca, mas muito mais sustentável.


As novidades:

A cada 50.000 consultas uma árvore será plantada, e fica disponível no portal o número de mudas atingido.

O fundo preto da tela, que a princípio gera estranhamento, gera uma economiza 20% da energia do monitor, além de ajudar a descansar os olhos.

Considerando que o Google realiza por dia mais de 2,55 bilhões de buscas com tempo médio suposto em 10 segundos por pesquisa e a proporção de monitores por tecnologia utilizada, um buscador de fundo preto geraria uma economia anual de mais de 7 Milhões de Kilowatts-hora!



Esse valor equivale à:



Mais de 63 milhões de televisores em cores desligados por 1 hora;
Mais de 77 milhões de geladeiras desligadas por 1 hora;
Mais de 175 milhões de lâmpadas desligadas por 1 hora;
Mais de 58 milhões de computadores desligados por 1 hora.
A iniciativa é nova, a contagem das árvores começou em agosto de 2009.




Esse é o link do navegador: http://www.eco4planet.com/pt/


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segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Da arte intersubjetiva à intercorporeidade









Uma arte concreta não é uma arte feliz. É preciso manter a percepção perto da experiência, sem, no entanto, limitar-se ao empírico. Restituir cada experiência do ser e da natureza do ente, com o que foi e está marcado de anteriormente.

Essa percepção deve buscar a cifra anterior à atividade reflexiva. Logos do mundo estético, do mundo sensível, da imagem, deve ser unidade indivisa do corpo e das coisas. Unidade que desconhece ruptura entre sujeito e objeto.

A arte contemporânea deve criticar a produção estruturada numa filosofia subjetivista e numa ciência objetivista. Deve se desmembrar dessa visão humanista rasa .

Porque na filosofia subjetivista, o sujeito se apropria da realidade exterior. É cognoscente a ela, objetivando sua realidade criada na idéia (representação de, como quis Schopenhauer em O Mundo Como Vontade e Representação). O sujeito é heterogêneo à realidade de si, criada pela idéia em representação de suas necessidades para organização própria da vida em grupo.

E também porque a ciência objetivista outorga ao cognoscente o poder de recriar a relação da realidade com o próprio sujeito reduzindo essa realidade à fugalidade, numa guerra de conceitos prisionais e modeladores, primando por uma inconsciente infelicidade disfarçada de aparente satisfação.

Aqui reencontramos o velho tecnicismo liberal pós-Terceira Revolução Industrial. Está ai, permanente na construção cultural pós-moderna. É essa percepção que permeia a lógica cultural do sistema capitalista hoje (para um maior aprofundamento do assunto, indico Fredric Jameson em Pós-modernismo: a Lógica Cultural do Capitalismo Tardio).

Schopenhauer trata dessa questão em relação à construção do amor no sujeito em função de uma sentimentalidade não construída da racionalidade, mas sim já presente nas raízes do seres como necessidade fisiológica de reprodução somada à necessidade de afeto e atenção. Trata ontologicamente o termo amor (e toda sua carga filosófica).

Subjetivismo e objetivismo, idealismo e empirismo, metafísica e positivismo, são dicotomias que preservam a mesma fonte: a separação do sujeito do objeto, considerados como realidades heterogêneas, distintas, e que se apropriam de gêneros e bens. Tendem a reduzir seu oposto a uma aparência ilusória. Essas dicotomias são, portanto, as faces complementares de um engano comum e originário. A desagregação dos modos distintos desses modelos figurará a construção de uma imagem fetiche por fugaz.

E num é que essa separação é a origem das ciências e filosofias modernas. A dicotomia tudo é consciência ou tudo é objeto, reduz os acontecimentos objetivos para aquém do entendimento dos fenômenos, e não é essa a percepção necessária à arte contemporânea.

Essa relação da filosofia subjetivista, modulada com essa ciência objetivista, é o que Merleau-Ponty chama em seu livro Fenomenologia da Percepção de “pensamento de sobrevôo”.

Sua filosofia contemporânea se preocupa com a fusão dessas dicotomias: sujeito-objeto, fato-essência, ser-consciência, realidade-aparência, que já carregam em si, interpretações da realidade: experiência e sentido. E para fundamentar a relação experiência-sentido, busca pela natureza do ser.

Para esse objeto, corpo e mundo são unos, um “campo de presença” onde carregam todas as relações da vida perceptiva e do mundo sensível. O corpo guarda em si a essência da transcendência dentro de uma caixa ontológica, material, que através da empiricização do homem no mundo e do homem no homem, mantém as relações diretas do externo (mundo visual, da imagem, da representação) com a percepção e absroção desse externo pelo ente, relação de troca de energia provada, já lá na física moderna, que existe produzida pelos movimentos primitivos circulares dos átomos e dos astros. Essa percepção fenomenológica acrescenta a essa relação os movimentos primitivos dos fatos, das idéias, dos sentimentos.

Esteticamente falando, é o logos do mundo estético que torna possível essa intersubjetividade como intercorporeidade, que através da manifestação corporal na linguagem e da manifestação não conceitual da desfiguração, permite o surgimento do logos cultural
[1], do mundo humano da cultura e da história. É a beleza do ser a partir do ser-em-si, do ser-no-mundo, por si no todo.

O corpo, nessa relação, produz, de forma centrípeta (pois é o sujeito que sai da idéia e não a idéia que sai do sujeito) uma necessidade fisiológica de agradabilidade dentro de um parâmetro de vontade de representar sua necessidade, uma construção da imagem da realidade desejada.

A arte por si só, em seu conjunto, numa cíclica histórica de construção pessoal da história da própria arte, consiste em fazer com que os objetos estejam presentes sobre a condição expressa de não estarem lá. É como funciona hoje com a pintura ou com a fotografia. Querem transcender a materialidade pela experiencialização, sem a qual não existiriam, porque rumariam para um sentido sem o qual não seriam pintura ou imagem.

Essa percepção relacional da fenomenologia nos retorna à análise do selvagem, a partir das novas necessidades presentes na caixa modelar contemporânea. Volta ao ser, antes da ciência e da filosofia.


É uma percepção que se expõe em si própria – por ser nós e nossa – sem pretensões daqueles sistemas conceituais que fecham relações dicotômicas num círculo determinado de pressupostos e absolutos. É apresentação própria, sem compromisso de desconstrução do anterior, com conseqüente compromisso de interconexão com o ulterior.







[1] Não sendo a linguagem sua essência e obra perfeita. Pelo contrário. Por isso precisa de complementaridade, como o é a arte, por exemplo.




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quarta-feira, 15 de abril de 2009

Diálogo Intranscendente ou Diafonia: diálogos e diferenças

Somos eternas possibilidades por que o futuro é uma probabilidade?

ou

O futuro é uma probabilidade por que somos eternas possibilidades?



- Talvez a resposta pra isso esteja em outra resposta, contida na diferença entre o artista e o filósofo.

- E onde está a diferença entre o artista e o filósofo?

- Está no caminho da busca.

- O filósofo pensa (e a práxis desse ato são os escritos filosóficos), descobrindo-se no devir raciocinista.

- O artista sente e faz (e a práxis desses atos são as múltiplas obras de arte – plásticas, música, poesia, arquitetura), descobrindo-se no trajeto da construção.

- Sem que um caminho negue o outro; sem que uma prática negue a outra; sem que as conseqüências se neguem, ambos - filósofos e artistas - sempre buscam possíveis soluções para os problemas da vida
com um único objetivo: oferecer felicidade necessária e suficiente pras pessoas.

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